A VITÓRIA É HOJE!

Disse, com propriedade forjada na luta pela vida, o André Corsino Tolentino.

A triste notícia do choro das ilhas, veio de Boca de Coruja e chegou bem cedo, ajudado pela diferença de fusos horários.  Aquele espírito iluminado se libertou do corpo que vinha recusando acompanhar os voos do irrequieto pensamento do homem de Fajã de Barreira que, de conquista em conquista, virou de Cabo Verde e do Mundo.

Durante este dia difícil tenho tentado não citar “lugares comuns” tais como: Ele tornou-se um homem bom, porque deixou de estar entre nós. Não é o caso. Faleceu um Grande Cabo-verdiano que, foi sempre um Homem Bom!

Todos os cabo-verdianos da minha geração e posteriores terão, provavelmente, histórias a contar, em que entra Corsino Tolentino. Nesta hora de recolhimento e de luto, peço vossa compreensão pela indiscrição que brota assim mesmo.

Quando comecei a identificar os objetos e as pessoas, conheci o Corsino. Ao entrar no Liceu Gil Eanes em São Vicente, ele completava o 7º e último ano do então ensino liceal. Mas ainda tive a oportunidade de receber de suas mãos, às vezes, a pequena moeda de 2$50 (do BNU) para comprar pudim de queijo, no intervalo das aulas, na bandeja da funcionária, Sra. Marta.

Desde que ele deixou os estudos em Portugal para abraçar, a tempo inteiro, a causa da Independência Nacional que passei a dedicar-lhe minha admiração. Em julho de 1974, encontrámo-nos, por mera casualidade, junto ao edifício da UDIB, ao lado da ainda chamada Praça do Império, em Bissau, e, com muita admiração ao me ver, exclamou enquanto me abraçava: “Oh moce, o quê que bô tita fazê prei?” Depois foi o regresso a Cabo Verde e as jornadas de lutas, lado a lado, sobretudo nos vales e montes de Santo Antão até o virar da esquina do nosso 5 de julho de 1975.

Mais tarde, na década de 80, na cidade da Praia, em sua casa no Ténis, bairro do Plateau, eu marcava presença normalmente em datas de aniversário e onde aumentava o leque de minhas amizades praienses.

Após 1991, apesar de normais diferenças ideológicas conjunturais, parece que a amizade ainda se cimentou mais. Passámos a conversar mais e a troca de correspondências, com a chegada do correio electrónico, aumentou significativamente. Os e-mails, de um e de outro lado, eram sempre dirigidos ao amigo “Pé de Rotcha”, como os dois Chanpedrenses passaram a chamar um ao outro.

Quando o Corsino se libertou da política ativa, regressou em força aos estudos e à pesquisa das coisas cabo-verdianas, africanas e mundiais, tendo produzido grandes trabalhos que, com certeza, a nossa academia dará a devida utilização. Talvez, o homem/governante da 1ª República que mais se dedicou à conquista de conhecimentos.

Foi sempre um homem simples e nunca se deixou embriagar pelo poder, quando teve de exercê-lo. O que terá levado um grupo de cidadania santantonense, de que tive a honra pertencer, a compor um dossier solicitando a atribuição de seu nome à uma escola secundária da sua freguesia e que chegou mesmo a receber o despacho favorável da então Ministra da Educação. Infelizmente, não chegou a concretizar-se até este momento. O processo está completo e fechado e, como se costuma dizer, cada coisa tem o seu timing pré-definido!

A Gratidão do Estado, aos cidadãos que se destacam na transferência de valores nacionais e universais às gerações seguintes, é sempre uma via soft de unir a Nação cada vez mais. Mais do que isso, é um dever do Estado!

O Corsino Tolentino foi um desses cidadãos. Sejamos gratos a tudo que ele fez em prol da Pátria de todos nós!

Daqui de Brasília, impossibilitado de o acompanhar amanhã até Fajã de Coculi, envio um abraço solidário à Helena Curado Tolentino, companheira de todas as horas, às filhas Nancy e Leida, aos netinhos, irmãos, sobrinhos e família toda.

O Homem de Fajã de Barreira que se tornou cidadão do mundo, deixa-nos o espírito que pairará sobre as ilhas numa inspiração permanente para o desenvolvimento.

Vai com Deus, amigo “Pé de Rotcha”, porque tua missão por estas bandas foi plenamente conseguida e o teu povo te será eternamente GRATO!

Embaixador, José Pedro Chantre D’Oliveira.