Candidatura da Cidade Velha a Património da Humanidade e Fórum sobre Economia da Cultura marcam 2008

Data 29/12/2008 | Assunto: Cultura


Qual foi o facto cultural mais marcante de 2008? A menos de uma semana para o fim do ano, a Inforpress relembra os grandes acontecimentos que marcaram a vida cultural do arquipélago, lançando um olhar retrospectivo sobre o ano que agora finda, ciente de que toda a retrospectiva é incompleta.
Com o ano de 2008 a terminar, e no meio das vastíssimas áreas que formam a cultura, há dois acontecimentos que se destacam no imenso mar de realizações e ventos culturais que marcaram o ano que agora termina: a entrega à UNESCO do dossier da Candidatura da Cidade Velha a Património da Humanidade e a realização do Fórum sobre a Economia do Desenvolvimento Sustentado.
A candidatura da Cidade Velha de Cabo Verde a património da humanidade foi apresentada no início de Março e mais tarde aprovada pelo comité de avaliação da UNESCO, que enviou, em Setembro, uma missão técnica ao arquipélago para avaliar no terreno as condições dessa candidatura, embora a decisão apenas seja anunciada em Julho de 2009.


Mas para o governo cabo-verdiano, qualquer que seja a decisão deste órgão da ONU, a “Cidade Velha já é Património da Humanidade”, porque, segundo explica o ministro da cultura, Manuel Veiga, “o que falta é o reconhecimento da comunidade internacional”.
Cabo Verde apresentou em Janeiro a Cidade Velha como candidata a património da humanidade pelo peso histórico que representa e por ser o berço da nação cabo-verdiana, estando o pronunciamento da UNESCO previsto durante a conferência desta organização, agendada para o mês de Julho do próximo ano, em Espanha.
Primeira cidade construída pelos portugueses no arquipélago, no século XV, e que durante séculos serviu como entreposto de escravos, a Ribeira Grande de Santiago foi durante três séculos, de acordo com Manuel Veiga, “o centro do mundo atlântico", sendo que o continente americano “seria hoje outra coisa”, se não tivesse existido a Cidade Velha, conforme explicou o ministro.
Cerca de 60 por cento dos sítios históricos estão na Europa e Estados Unidos, seguindo-se a América Latina com 30 por cento, os restantes 10 por cento estão em África, na Ásia e na Oceânia, disse o ministro.
Actualmente, a antiga urbe está a ser requalificada. O Bairro de S. Sebastião está a beneficiar de arruamentos e habitações, mas mantendo a traça original. Também os restos da antiga catedral da Cidade Velha sofreram obras de consolidação, a cargo do arquitecto português Siza Vieira.
As obras destinam-se a integrar o bairro num “espaço histórico emblemático onde as ruínas da Sé Catedral são o testemunho eloquente de um passado que não podemos apagar da nossa memória”, defende Veiga.
Outro evento marcante para o sector cultural em 2008 foi a realização, pelo Ministério da Cultura, em Novembro, na Cidade da Praia, do Fórum Internacional sobre a Economia do Desenvolvimento Cultural Sustentado.
O evento, que serviu para partilhar a experiência de Cabo Verde com experiências mais avançadas da África, Europa e América no tocante à promoção e financiamento da cultura e sua industrialização da cultura, bem como o combate à pirataria no campo do audiovisual, teve por objectivo fundamental a procura de auto sustentabilidade cultural.
A ideia subjacente ao fórum, segundo Manuel Veiga, é a de que o governo não pode financiar todos os projectos culturais, pelo que o caminho a seguir pelos artistas passará pelo ganho do hábito “de ir ao banco fazer um empréstimo”, sendo que o governo, revelou a autoridade, está a tentar criar um crédito bonificado para financiar projectos culturais.
O Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-verdiano (ALUPEC) esteve em avaliação durante uma mesa-redonda, que reuniu na Praia utilizadores e especialistas na matéria, nacionais e vindos da diáspora, dos Estados Unidos da América e de Portugal. No encontro realizado no quadro da celebração dos dez anos do percurso do ALUPEC, a título experimental, debruçou-se sobre a avaliação e a funcionalidade do Alfabeto para a Escrita Cabo-verdiana e apresentou-se um conjunto recomendações de propostas para as eventuais e futuras alterações que reúnam consenso.
Ainda a nível institucional merecem destaque as celebrações do Dia Nacional da Cultura, este ano signo da música, e a entrega dos prémios culturais para a descoberta de talento jovem e para a reconfirmação e distinção de conceituados artistas. Os galardoados foram conhecidos numa grande gala musical, no seguimento dos concursos de apresentação e de promoção das respectivas obras.
Constituiu ainda novidade para 2008 a institucionalização de uma bolsa de criatividade cultural, o lançamento de concursos para a concepção do Monumento à Liberdade e do Memorial ao Capitão Ambrósio e, ainda, a entrega do “Grande Prémio Cidade Velha”.
No domínio da edição, foram várias as obras dada à estampa por iniciativa do Ministério da Cultura, como “Actas do Simpósio Claridade de 1986 e de 2007”, “Claridade na Palavra dos Outros”, “O Ano Mágico de 2006 – Olhares retrospectivos sobre a cultura e a história cabo-verdianas”, “Três Décadas de Artes Plásticas”, reedição e publicação de algumas obras no ALUPEC e de alguns clássicos já esgotados, como ainda a edição do Dicionário Bilingue Crioulo-Português e da Revista Pré-Textos, da Associação de Escritores Cabo-verdianos.
Realce de 2008 foi também a participação de Cabo Verde na Feira do livro de Lisboa, em que o arquipélago foi país tema, para além da organização de uma feira cultural em Boston.
Em Cabo Verde, a cultura continua a andar com os seus próprios pés e para este sector o ano chega ao fim com um saldo positivo, com presença de atracções culturais em várias ilhas e concelhos, abrangendo a realização de vários eventos, que vão desde lançamentos de livros e CDs, passando pelos festivais, digressões, exibições de peças de teatro e exposições colectivas e individuais. Com ou sem apoio governamental ou institucional.
No entanto, seria, a todos os níveis, fastidioso enumerar aqui todos os feitos que marcaram o ano de 2008. Seja como for, a Inforpress destaca a área músical que, em Cabo Verde, ao que tudo indica, continua a dar cartas, com lançamentos e espectáculos promocionais, tanto cá dentro como lá fora.
Em termos de lançamento de discos, o arquipélago musical foi sacudido com os trabalhos de Ayres Silva, “Recado pa Terra”; Princesito, “Spiga”; “Cabopop”, Gil Semedo; “Ramiro Mendes – Diáspora”, Mendes Brothers; Cármen Sousa, “Verdade”; Grupo Pó di Terra, “Injustiça”; Guty Duarte, “Resposta”; Magui Spencer, “Ca Bô Fadiga”; Dany Silva, “Caminho Longi”; Teta e Sara Alhinho, “Gerassons”; - Hernâni Almeida, “Afronamim”; Maria Alice, “Tocatina”; Titina Rodrigues, “Cruel destino”; Cesária Évora, “Rádio Mindelo”; Eder, “Perfil”; Ferro Gaita, “Cidade Velha”. Na área do livro, o escritor e músico, Mário Lúcio Sousa, viu publicada a colectânea de textos “Teatro”, da colecção Dramaturgia Nacional da Associação Midelact.

Os escaparates ficaram enriquecidos ainda com a publicação das obras “A Sexagésima Sétima Curvatura”, do poeta, romancista e ensaísta, Oswaldo Osório; “Tenho o infinito trancado em casa”, de Vadinho Velhinho; “O Fazedor de Utopias: Uma Biografia de Amílcar Cabral”, do angolano António Tomás; “O Campo de Concentração do Tarrafal (1936-1954): A Origem e o Quotidiano”, de José Manuel Soares Tavares; “Cabo Verde – Ontem e Hoje”, de Armindo Silva; “Sonhos e Anseios”, de Hermínia Curado.

“Os Avatares das Ilhas”, de Danny Spínola; “Primeira Antologia Pessoal”, de António Monteiro; “Poemas do Tempo das Trevas”, de Onésimo Silveira; “Vidas de S. Tomé segundo vozes de Soncente", de Augusto Nascimento, “Bricabraque”, de Abrão Sena; “Na minha terra também se ama”, de Dionísia Velhinho Rodrigues; “A História Concisa de Cabo Verde”, de Maria Emília Madeira Santos; “Sodade de Cabo Verde”, de Gabriel Raimundo; e “Cabo Verde e As Artes Plásticas – Um Percurso em Perspectiva”, de Danny Spínola, são outras obras publicadas.

Na pauta de espectáculos e festivais musicais, o ano foi, mais uma vez, pródigo. Apesar de problemas orçamentais, o arquipélago não deixou de realizar os muitos festivais que acontecem ao longo do ano, sobretudo no Verão, com destaque para os mais emblemáticos como o da Gamboa, em Maio, na Cidade Praia, o festival da Baía das Gatas, em Agosto, em São Vicente, o de Praia da Cruz, também em Agosto, na Boa Vista e o de Santa Maria, em Setembro, na ilha do Sal.

Ainda na pauta de eventos, São Vicente recebeu a 14ª edição do festival internacional de teatro do Mindelo, Mindelact 2008, que este ano decorreu de 4 a 14 de Setembro. Vinte e três companhias de oito países fizeram a festa do teatro, com 25 espectáculos e seis acções de formação.

2008 foi também ano de homenagens e distinções. O Ministério da Cultura agraciou as cantoras cabo-verdianas Celina Pereira e Maria de Barros com o diploma de mérito cultural.
O grupo “Mendes Brothers”, que este ano assinalou 30 ano de existência, foi homenageado pela Câmara Municipal de São Filipe, por ocasião das festividades do Dia do Município e da Bandeira de Nhô San Filipe.

O Grupo de Teatro do Centro Cultural do Mindelo recebeu, pelo Dia Mundial do Teatro, o Prémio de Mérito Teatral 2008, instituído pela Associação Artística e Cultural Mindelact.

A Câmara Municipal de Santa Cruz mandou erguer, no centro da Vila de Pedra Badejo, um busto em homenagem ao músico Carlos Alberto Martins “Katchás”.

A jovem artista cabo-verdiana Mayra Andrade, distinguida com o Prémio BBC como Artista Revelação do Ano, viu o seu álbum “Navega”, disco de Ouro em Portugal, distinguido também com um outro prémio internacional, desta feita, o Cubadisco 2008, no país de Fidel Castro.

O poeta cabo-verdiano residente em Portugal José Luís Tavares foi laureado pelo Ministério da Educação do Brasil com o prémio “Literatura para todos”, no valor de dez mil reais (cerca de 400 mil escudos cabo-verdianos), pela obra inédita “Os Secretos Acrobatas”, destinada ao público jovem e neo-leitor.

O pintor Tchalé Figueira foi galardoado com o prémio da prestigiada Fundação Jean Paul Blachere, durante a sua participação na 8ª edição da Bienal de Arte Africana Contemporânea realizada em Dakar.

Entre ganhos e prémios, a Cultura de Cabo Verde perdeu este ano, no entanto, três figuras: Jaime do Rosário, antigo integrante do grupo musical “Os Tubarões”, Nho Mano Mendi, o único mestre e construtor de Cimboa no arquipélago e o músico natural de Santo Antão João Joaquim Maurício, mais conhecido por “Jon de Jóna”.
Inforpress



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