A representante das Nações Unidas em Cabo Verde, Patrícia de Mowbray, garantiu hoje que a ONU continuará a acompanhar e apoiar o país após 01 de Janeiro de 2008, quando o arquipélago passa a país de rendimento médio.
Após uma reunião, a última, do Grupo de Apoio à Transição (para país de rendimento médio), GAT, a responsável disse que algumas agências das Nações Unidas irão mudar o tipo de apoio a Cabo Verde mas que isso não significa que terminem as ajudas.
"Nas próximas semanas e meses vamos mobilizar entre dois e quatro milhões de dólares para o desenvolvimento do país", afirmou a responsável, que defendeu também que se mantenha após Janeiro o GAT, com outro nome, que sirva de grupo de diálogo entre Cabo Verde e os parceiros de ajuda ao desenvolvimento.
A ONU determinou, em 2004, que a partir de 01 de Janeiro de 2008 Cabo Verde passaria à categoria de países de rendimento médio. O último país a ter sido graduado, antes de Cabo Verde, foi o Botswana, em 1994.
Apesar de satisfazer dois critérios para subir de escalão na categoria dos países, o do rendimento per capita e o índice de desenvolvimento humano, Cabo Verde não conseguiu ainda atingir o terceiro critério, o índice de vulnerabilidade económica.
"Cabo Verde não vai diminuir a vulnerabilidade económica de um dia para o outro" mas esse objectivo "está no centro das preocupações do governo", disse hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros, Vítor Borges, que presidiu à reunião do GAT.
Recordando que o país depende ainda muito da ajuda pública, das remessas dos emigrantes e do investimento estrangeiro, o ministro salientou que a graduação "é uma decisão administrativa da comunidade internacional" que não vai mudar a visão que o país tem do desenvolvimento: mais crescimento económico, mais investimento, mais emprego, mais educação e mais saúde.
"É importante que Cabo Verde continue a beneficiar dos apoios da comunidade internacional", disse o ministro, salientando que o processo de Cabo Verde vai ser seguido com muita atenção pela União Africana, até porque é em África que se situa a maior parte dos países considerados menos avançados, que consoante o desempenho do arquipélago quererão ou não evoluir para países de rendimento médio.
Instando os cabo-verdianos a assumirem as suas responsabilidades neste processo de graduação, o ministro frisou que o país tem a noção de que "há determinados instrumentos de apoio ao desenvolvimento que estão talhados para países menos avançados" e que por conseguinte a partir de agora deixam de existir.
A elevação de categoria faz com que, por exemplo, o Programa Alimentar Mundial (PAM) deixe de ajudar Cabo Verde nos moldes em que até agora o fazia.
Com a saída do PAM "a ajuda alimentar diminuirá e por consequência as importações de cereais vão aumentar. Isto exigirá um esforço orçamental suplementar para manter o nível de défice alimentar actual", salienta um relatório que Cabo Verde vai enviar ao secretário-geral da ONU.
Cabo Verde tem apenas um décimo da sua superfície arável, um PIB por habitante de 1930 dólares (dados de 2005) e um índice de desenvolvimento humano de 0,721 (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2006). O país depende grandemente de recursos externos e a produção de cereais no país cobre apenas 10 a 15 por cento das necessidades.
Ao fraco desempenho a nível de recursos juntam-se os custos da insularidade, que se reflectem especialmente a nível dos transportes.
O custo de transporte de um contentor entre as ilhas de Cabo Verde é de cerca de 2.576 euros, enquanto o transporte do mesmo contentor de Lisboa para Cabo Verde é de 1.387 euros. "O preço é cerca de 86 por cento mais caro para uma distância dez vezes mais curta", diz um estudo sobre os custos da insularidade de Cabo Verde hoje tornado público.