Discurso proferido pela Senhora Leonesa Fortes, Secretária do Estado Finanças e Administração Pública de Cabo Verde, na ocasião da abertura do projeto "Claridade na Terra da Luz".
Senhor Vice Governador do Estado do Ceará
Senhor Secretário da Cultura do Estado do Ceará
Senhor Embaixador de Cabo Verde no Brasil
Digníssimos Membros desta Mesa de Honra
Ilustres Convidados
Senhores da ONG Adolfo Caminha
Membros da Associação dos Estudantes Cabo-verdianos
Ilustres Presentes
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Desejaria, em primeiro lugar, em nome do Senhor Primeiro-Ministro de Cabo Verde e do Governo por ele chefiado, saudar a todos os presentes, destacando as ententidades institucionais e parceiros nas figuras do Secretário da Cultura do Ceará, Dr. Auto Filho, e do Embaixador de Cabo Verde no Brasil, Dr. Daniel Pereira.
Desejaria, igualmente, felicitar a todos quantos se empenharam na organização e montagem do projecto "Claridade na Terra da Luz", evento que vai marcar de forma indelével e incontornável as relações entre a República de Cabo Verde e o Estado do Ceará, sublinhando o empenho da Organização Não Governamental, Adolfo Caminha e a Associação dos Estudantes de Cabo Verde do Estado do Ceará, bem como os apoios dos TACV/Cabo Verde Airlines e Hotel Oásis.
O projecto "Claridade na Terra da Luz", que ora abrimos em sessão solene, é o corolário de um grande e dinâmico processo de relações entre Ceará e Cabo Verde e se inscreve, seguramente, pela matriz cultural, na estratégia de adensamento da parceria, cada vez mais qualificada e diversificada, entre o Brasil e Cabo Verde.
O projecto também abre uma nova janela de cooperação entre as instituições culturais de parte a parte, porquanto institui acções de reciprocidade e de bilateralidade, prevendo deste o seu esboço a "Terra da Luz na Claridade", isto é, a realização do evento em frequência anual e permanente.
Este novo desafio interpela as instituições a um esforço de construção conjunta, não apenas das Feiras de Livros, mas de um conjunto de acções culturais, algumas já na calha, conforme ficou patente durante a recente visita do Governador, Cid Gomes, a Cabo Verde.
O projecto, ainda, propicia uma excelente oportunidade de conhecimento mútuo e de teste de parceria que, a partir do veio cultural, irá requalificar e aprofundar o estágio das relações comerciais, económicas, políticas e diplomáticas já instaladas e em clara dinâmica ascendente entre Ceará e Cabo Verde.
A iniciativa de celebrar Claridade, movimento cultural que marca o modernismo literário cabo-verdiano, no dealbar dos anos 30 do século passado, é louvável e saudamo-la com sentido de causa e consequência. Se ao tempo desse grande desafio cultural o Brasil, mormente o Nordeste brasileiro, teve um papel histórico e influenciador, a este tempo de o celebrar o Brasil ganha um papel e um estatuto especiais de país incontornável. As ligações entre nós e os brasileiros, que têm sido verdade em vários momentos da nossa história, é hoje cada vez mais evidente e "Claridade na Terra da Luz" lhe é, mais do que corolário, apanágio notável.
As relações são mais plasmadas e mais sustentáveis quando assentes nas afinidades e nas convergências culturais. Somos povos com a mesma língua e culturas afins. Somos, afinal, a mesma alma, com um DNA comum, separados pelo Oceano Atlântico, mas juntos pela vontade comum e partilhada de fazer História. "Claridade na Terra da Luz", bem como "Terra da Luz na Claridade", cumprem de forma inovada e renovada a premência de uma diplomacia cultural que, a par da económica, educativa e da política, já são a realidade emergente entre o Ceará e Cabo Verde.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Deixamos anteriormente antever que a geração do movimento literário da Claridade contribuiu, de forma decisiva e significativa, para o processo de afirmação e de consolidação da consciência da Nação cabo-verdiana, quer através das letras, da música ou da investigação histórica e cultural.
Na verdade, como já escrevia, recentemente, Manuel Veiga, Ministro da Cultura de Cabo Verde, "a Geração Centenária do Movimento Claridoso é ilustre, é insigne porque soube consolidar e afirmar a consciência da Nação peregrina desde o tempo dos escravos fujões, passando pelas revoltas de escravos, operários e de camponeses, pela reivindicação dos nativistas (como Pedro Cardoso e Eugénio Tavares à testa), pela cumplicidade do Seminário de S. Nicolau, mas também pela porta que abriu à reivindicação política que culminou com a Independência Nacional, a 5 de Julho d 1975, e prosseguiu com a afirmação da Democracia e do desenvolvimento económico e social de que hoje somos actores, sujeitos e destinatários.
E como a influência da zona nordestina do Brasil foi despicienda, há que testemunhar, também com Manuel Veiga, o nosso reconhecimento ao sentir tropical das terras do Nordeste brasileiro que sulcou mares, venceu ondas e domou tempestades para desembarcar no porto das ilhas onde os homens de Claridade mantinham a chama acesa para fazer o seu próprio trajecto no mar do Arquipélago, ainda que os ventos de inspiração possam ter chegado tanto do lado de lá como do lado de cá".
Tal postura é tanto mais importante quando, para sermos efectivamente justos, teremos de, igualmente, reconhecer que, o ideário dos claridosos de "fincar os pés na terra", como afirmou o Senhor Primeiro Ministro, José Maria Neves, mais do que uma declaração estético-literária, foi um decisivo grito de liberdade e de cabo-verdianidade.
Com efeito, prossegue o Chefe do Governo de Cabo Verde, "essa é a geração que, desde logo no plano cultural, soube interpretar os sinais dos tempos e, sobretudo, soube situar-se numa linha evolutiva de resistência e de uma profunda ânsia de liberdade e de dignidade que caracteriza a existência mesma do cabo-verdiano no chão destas ilhas.
Eles souberam dar voz aos sofredores anónimos, souberam ouvir o batuque silenciado, souberam sentir em si mesmos as revoltas esmagadas, as mortandades por carência absoluta de pão e água, as estiagens e o silêncio depois, souberam ter em si mesmos esse "germe de resistência" (a expressão é de Amilcar Cabral) que, ao longo da noite tenebrosa, nos foi guardando de não sermos nós mesmos".
Senhor Vice Governador
Senhor Secretário da Cultura,
Ilustres Convidados,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Ciclicamente e de forma renovada o Brasil inteiro vive, em Novembro, o mês da "consciência negra", para que a memória não faleça sobre a influência decisiva e fundamental do Continente africano na formação das nossas sociedades.
É sob este signo que desenrola esta importante acção cultural, que testemunha a intensidade e densidade das nossas relações, já que é a cultura o cimento que aproxima e congrega os povos. Este é mais um anel na espiral, sempre ascendente, da evolução das relações de parceria, que se deseja seja estratégica, entre Cabo Verde e o Brasil, constituindo-se, desde logo, numa das âncoras do desenvolvimento futuro de países irmãos, almas gêmeas.
Nestes tempos, a par da evolução da parceria comercial e empresarial, e da não menos importante cooperação no domínio da Educação, a Cultura tem vindo a incrementar o adensar destas relações, através de actos e factos de notável significação, nomeadamente:
A atribuição do Titulo de Professor Emérito do Primeiro-Ministro Jose Maria Neves pela Universidade Federal do Ceará;
A criação do Instituto Brasil - Cabo Verde, com sede na UFC;
A outorga do título de Doutor Honoris Causa ao Presidente da República, Pedro Pires;
A participação da Biblioteca Nacional, dos editores e escritores cabo-verdianos na Bienal Internacional do Livro do Ceará;
A outorga do título e do diploma de mérito de membro da Academia Cearense de Letras e da Academia das Artes e Letras do Nordeste ao poeta Filinto Elísio;
Os lançamentos de livros do escritor Germano Almeida, de António Correia e Silva e do próprio Embaixador de Cabo Verde, no decorrer deste evento;
Sem falar da parceria da "Claridade na Terra da Luz" e "Terra da Luz na Claridade"...
Factos e feitos que denotam e, sobretudo, conotam o grande incremento das relações culturais entre o Ceará e Cabo Verde, afinal os motores das relações globais entre os dois povos. Não subsistem dúvidas, pois. As relações de futuro entre Cabo Verde e o Brasil, em geral, e entre Cabo Verde e o Estado do Ceará, em particular têm futuro.
Falam os poetas, que somos a língua em que amamos e expressamos amizade. Assim sendo, ventos e marés ajudam a encurtar a distância geográfica que nos separa e levam e trazem os ecos das nossas existências.
O livro, o mágico da palavra perene, fica garante da ponte comum.
Muito Obrigada.
Leonesa Fortes
Secretária do Estado Finanças e Administração Pública de Cabo Verde