
A Escola Básica Integrada da Serra Malagueta, primeiro Parque Nacional do país, tem mais de 100 alunos e uma horta, servidos com água que grandes telas instaladas no alto dos montes tiram do nevoeiro, um projecto único no árido Cabo Verde.
A Serra Malagueta é o grande maciço montanhoso de Santiago onde desde há dois anos estão instalados os doze painéis de recolha de água do nevoeiro. Entre Maio e Dezembro de 2007 foram captados através dos primeiros oito painéis 91 toneladas de água, o que dá uma média de 13 toneladas por mês, o suficiente para abastecer toda a escola e ainda sobrar para a comunidade local.
O sistema, segundo o engenheiro Florisvindo Furtado, foi concebido com materiais baratos e, além das telas (num total de 122,3 metros quadrados), compreende tubos para canalizar a água e reservatórios.
Já na década de 60 do século passado foram feitas experiências para aproveitar a água do nevoeiro, retomadas em 2007 e que, "num ambiente seco como o de Cabo Verde, faz todo o sentido", disse à Lusa o director do Parque Natural, João Mascarenhas.
Ainda que nem sempre tudo corra bem, já que o vento forte dos últimos dias derrubou algumas das telas, o responsável pelo Parque defende que "é necessário instalar telas por todos os lugares onde seja possível captar o nevoeiro".
A Serra Malagueta é um desses locais por excelência. A cerca de mil metros de altitude, nas zonas de Agu Nobu e Posto, com um material a fazer lembrar serapilheira e uma calha que vai escoar as águas, os grandes painéis verticais não podem passar despercebidos.
Por cada metro quadrado de tela, adianta, há a possibilidade de recolher 13 a 14 litros de água por dia. E isso, diz também, é precioso porque em Cabo Verde a água é um bem escasso, chovendo com pouca frequência em todo o arquipélago.
João Mascarenhas olha apreensivo para um dos painéis rasgado e outros dois tombados. O vento sopra sempre de leste e atravessa a tela, mas a estrutura metálica não aguentou a ventania dos últimos dias: "Disseram-me hoje, o vento derrubou as telas no fim-de-semana", contou à Lusa, no alto da Serra, coração do Parque Natural.
João Mascarenhas tem outras preocupações: acabar de construir o parque de campismo, a inaugurar já no próximo mês, é uma delas, com as tendas (40) a chegar por estes dias.
"Estamos a dar os primeiros passos, falta muito por fazer", diz o director, contando que quer ter ali exposição de produtos da serra que é o único Parque Natural da ilha e que abriga uma variedade única de fauna e flora, incluindo macacos.
Nos 774 hectares do Parque estão a ser construídos nove trilhos para caminhadas, quer pelo alto da serra, de onde se vêem as ilhas do Maio e do Fogo, quer pelas ribeiras, e "está a ser feito um trabalho de sensibilização junto da população para que não haja muita pressão sobre o parque".
E depois ainda vai haver uma oficina para fazer "pano di terra", vão ser produzidos doces e feito artesanato aproveitando os produtos da Serra, o único local do arquipélago onde se encontra o Marmolano, uma árvore de cujas folhas se faz um remédio para curar fracturas ósseas.
A Figueira Brabo ou a Carqueja de Santiago são outras árvores que só existem ali, e o Mato-Boton, cujas folhas tratam a gripe. E desde há dois anos estão as telas. Também só existem ali e dão água.