
(Pelos 356 anos da passagem de Vieira por Cabo Verde, de 20 a 26 de Dezembro de 1652)
Dois recados importantes mandou o jesuíta de Cabo Verde: o primeiro à sua ordem religiosa, através da carta ao seu confrade André Fernandes, bispo eleito do Japão, mencionando que os padres indígenas, apesar de negros como azeviche, em nada eram inferiores aos mais devotos e dedicados do reino. É que, contrariando as normas do fundador, a Companhia de Jesus não admitia nas suas fileiras nem negros, nem mulatos nem descendentes de judeus, por mais cristãos que fossem. Ele, mestiço, tinha razão para se sentir ofendido. O segundo recado deixou-o a esses mesmos cónegos cuja postura louvava, dizendo-lhes que seriam mais úteis nas missões de África ou das ilhas do que confortavelmente sentados nos cadeirões da Sé. É que ele ia para as missões do fim do mundo, no Maranhão, contrariado, mas ia mesmo!
Para falar ao vento bastam palavras;
para falar ao coração são necessárias obras.
Palavras sem obras são tiros sem bala.
(Sermão da Sexagésima, 1655)
As frases que precedem são do padre António Vieira, um dos maiores luso-brasileiros de todos os tempos: foi padre missionário, diplomata, explorador, um grande viajante, o mais exímio escritor de língua portuguesa e o maior orador de sempre no nosso idioma. Pela grandeza dos seus projectos, pela força da sua mensagem, pelas críticas aos desmandos da sociedade do seu tempo, às virtudes desprezadas, aos vícios tolerados, pela esperança que comunicou aos seus compatriotas num tempo de sofrimento e de desespero, ele transformou-se num arauto da grandeza desejada, foi um modelo de patriotismo e um pedagogo do futuro. Imaginou o Quinto Império onde integrava todos os homens de todas as raças, num mundo global onde cada um teria o seu lugar como construtor de riqueza e de felicidade, de que todos beneficiariam, cada qual ao seu jeito e feitio. Foi assim que propôs e definiu o mundo que viria a acontecer, ao qual chamou praça ou feira universal e que, trezentos anos mais tarde, os intelectuais do século XX reconheceriam como sendo a aldeia global, projecto que desafia hoje como no seu tempo os que acreditam no futuro da solidariedade humana.
O Quinto Império do padre António Vieira seria, na eclosão de uma nova era, o reino de Cristo consumado na terra, unindo todos os homens numa só ordem política e numa só crença, garantindo a todos e a cada um a sua parte na criação da riqueza colectiva e no benefício dos bens disponíveis. Nos nossos dias chama-se a isto cidadania, a fraternidade humana em projecto. O fonema tem a sua origem num conceito cristão de poder e partilha e remonta a Santo Agostinho, nos alvores do século V da nossa era, quando a civilização ocidental sofreu um dos choques mais violentos de toda a sua história. A palavra não consta do vocabulário corrente de Vieira, mas ele foi dos primeiros pensadores da era moderna a propor e a defender o seu conteúdo ideológico e pragmático, acreditando e pregando que o povo português, pelas suas virtudes colectivas e pelo seu desempenho na epopeia da expansão pelo mundo, seria o modelo e o alicerce sobre o qual se construiria a história do futuro. Nem no seu tempo nem depois, jamais alguém imaginou para Portugal e para os povos que pelo mundo falam português, um tão grande destino, uma tão nobre responsabilidade.
Há hoje no mundo 220 milhões de seres humanos que, sem ainda partilharem globalmente uma fatia generosa de riquezas e projectos, falam a mesma língua de Vieira, definindo através dela a sua identidade, partilhando com gente de diferentes etnias, de continentes distantes e de culturas variadas as mesmas emoções e os mesmos desejos que só uma língua sofisticada e complexa consegue exprimir, satisfazer e consumar. Dentro de 50 anos seremos 500 milhões a falar a mesma língua à escala do mundo, quando aqueles que acabam de nascer terão alcançado a plena maturidade da sua força produtiva e a consciência esclarecida da sua identidade. A língua é a primeira e a maior riqueza colectiva de um grupo humano, para a qual todos contribuem e da qual todos usufruem. É através da língua que entendemos e projectamos o nosso mundo, assimilando o legado dos que nos geraram, criando o nosso próprio modo de viver e legando aos que nascem depois de nós a força de o transformar; é por ela e com ela que definimos a nossa identidade e construímos a cidadania partilhada naquela feira universal anunciada pelo imperador da língua portuguesa, num célebre sermão pregado em Roma, já lá vão 334 anos.
O padre António Vieira foi um homem do seu tempo, limitado pelos parâmetros da sua formação, pelos limites da sua maneira de enxergar o mundo, pelos constrangimentos religiosos e culturais de uma época conturbada, distante dos nossos conceitos e da maneira contemporânea de encarar a cidadania e as liberdades; foi um visionário e um espírito ousado que usou a inteligência e a imaginação para criar novidade e propor aos seus contemporâneos um rumo novo para um novo mundo. Ele foi um pedagogo no sentido mais nobre da palavra: aquele que mostra o caminho, que encoraja o peregrino na descoberta e na aprendizagem do que vai acontecendo e do que está por acontecer. O seu legado moral é a mais preciosa de todas as heranças: a fome e o desejo de transformar o mundo – um ritual de acção e palavra.
Abreu Freire