“Também acho que aqui eu me reencontrei. Cresci, ouvindo meu pai dizer que a minha bisavó era uma negra que foi das ilhas de Cabo Verde para o Brasil e a sensação que sinto estando aqui é que me reencontrei e isto só vai contribuir para enriquecer a minha carreira como artista”, palavras de Preta Gil, em entrevista a Liberal
Praia, 29 Agosto - A cantora e actriz brasileira Preta Gil tem 34 anos e é mãe de um filho de 13. Há seis anos, começou a sua carreira a solo, como artista, e hoje é uma referência da música brasileira, a nível mundial, com dois trabalhos discográficos no mercado e um projecto em andamento. Para além de ser cantora, Preta Gil é também actriz e fez muito sucesso na telenovela “Os Mutantes”, que está a passar neste momento na televisão cabo-verdiana, onde retrata a personagem de Helga, uma sofredora, mas com o poder da mulher, o que para ela é o melhor poder do mundo - procriar.
Praia, 29 Agosto - A cantora e actriz brasileira Preta Gil tem 34 anos e é mãe de um filho de 13. Há seis anos, começou a sua carreira a solo, como artista, e hoje é uma referência da música brasileira, a nível mundial, com dois trabalhos discográficos no mercado e um projecto em andamento. Para além de ser cantora, Preta Gil é também actriz e fez muito sucesso na telenovela “Os Mutantes”, que está a passar neste momento na televisão cabo-verdiana, onde retrata a personagem de Helga, uma sofredora, mas com o poder da mulher, o que para ela é o melhor poder do mundo - procriar.
Preta já actuou em vários países e chegou sábado a Cabo Verde, onde participou do festival de Corraletes na Ilha de Santo Antão. Seguiu depois para São Vicente, lugar que, para ela, é Salvador do Brasil. Passou pela capital onde, a convite do BCA, Preta Gil deu ontem à noite um espectáculo no Auditório Nacional, onde animou e fez vibrar centenas de pessoas que presenciavam o show. Dança, música, sorriso e simpatia da cantora deixaram o público satisfeito e sem palavras de expressar.
Em entrevista a Liberal, Preta fala desta viagem e garante ter-se sentido em casa ao pisar na terra do bisavô e promete voltar no ano que vem, com mais projectos.
Liberal: Qual foi a sua reacção, quando recebeu o convite para vir
actuar em Cabo Verde?
Preta Gil: Eu quis vir imediatamente e pedi à minha produção que viabilizasse de todas as maneiras a minha vinda para cá e estou muito feliz por ter vindo.
L: Da experiência que já teve da música cabo-verdiana, qual é a avaliação que faz?
PG: Antes de vir para cá, já escutava músicas cabo-verdianas, principalmente de Cesária Évora, que é uma referência mundial, da música e cultura cabo-verdiana. Sou louca por músicas africanas, como cuduro e funaná, que são bem parecidos com os ritmos musicais do Brasil. Por isso, sinto-me em casa, à vontade e estou louca para sair e ir dançar, o que não consegui desde que cheguei.
L: O que vai levar de Cabo Verde para o Brasil?

PG: Ai, muitas coisas. Tenho pedido a todos os amigos que fiz aqui CDs e DVDs, porque eu quero levar comigo um pedaço de Cabo Verde para o Brasil. Pretendo, com a minha vinda até aqui, servir de ponte entre essas duas raízes, para que os brasileiros conheçam mais, sobre a vossa cultura.
L: Antes de vir para cá, sabia que o seu disco era vendido em Cabo Verde?
PG: Não. Sabia que era vendido em vários países, mas em Cabo Verde fiquei surpresa, no dia em desembarquei no Sal, quando deparei com uma loja de CDs, onde havia o meu disco e também um cartaz bem grande do meu primeiro trabalho discográfico, foi demais e amei estar em Cabo Verde.
PRETA FICOU IMPRESSIONADA E EMOCIONADA
L: Qual é a sensação que sentiu quando teve o primeiro contacto com o público cabo-verdiano no festival de Corraletes, em Santo Antão?
PG: Fiquei impressionada pelo amor e carinho que eles demonstraram por mim. Quando entrei no palco, as pessoas começaram a dizer, Preta Gil, você é mutante, você vai morrer. E isso me deixou muito emocionada. E também porque vibravam e cantavam, sem mesmo saber a letra das minhas músicas.
L: Como achou o show de ontem?

PG: Maravilhoso. A minha emoção foi grande, porque estou começando a minha carreira e poder receber este amor e carinho de um público tão rico de amor, história, raça… É uma troca muito simbólica para minha carreira. Era uma Preta antes de vir a Cabo Verde e agora sou uma Preta depois de estar em Cabo Verde.
L: Como conta no seu blog, vários imprevistos marcaram a sua viagem, na vinda para Cabo Verde. Como explica isso?
PG: Foi muito difícil chegar até à ilha Santo Antão. O voo foi cancelado de sexta-feira para sábado, chegámos ao Sal atrasados e o voo para São Vicente já tinha descolado. Enfim, contratempos que acontecem em qualquer lugar do mundo, mas estava tão feliz, tão entusiasmada em encontrar esse público e mostrar a minha música, que todas essas vicissitudes não me abateram.
L: Também, escreveu que a ilha de São Vicente se parece muito com Salvador. E a nossa cultura tem alguma semelhança com a vossa?
PG: Demais. A impressão que eu tenho é que voltei às minhas raízes. Ideias que tinha de mim mesmo. Sou filha de um negro e uma branca, então aqui tenho encontrado mulheres muito parecidas comigo.
L: Aprendeu a falar alguma coisa em crioulo?
PG: (risos) Não, ainda não. Talvez pelo facto de esta ser a minha primeira vez em Cabo Verde. Acredito que virei outras vezes para cantar noutros festivais e com certeza estarei com crioulo na ponta da língua.
L: Pensa em fazer algum projecto musical com artistas cabo-verdianos?
PG: Conheci alguns artistas em São Vicente, como a Cesária Évora, e também no próximo mês de Novembro vai haver uma semana de cultura cabo-verdiana no Brasil e quero me inteirar e consolidar nestes actuações.
Também acho que aqui eu me reencontrei. Cresci, ouvindo meu pai dizer que a minha bisavó era uma negra que veio das ilhas de Cabo Verde para o Brasil e a sensação que sinto estando aqui é que me reencontrei e isto só vai contribuir para enriquecer a minha carreira como artista.
EM CABO VERDE SÓ HÁ “NEGRÃO LINDO”
L: Este show marca também o início de uma relação mais forte com Cabo Verde?
PG: Claro, sem dúvida. Acho que venho, não só como uma artista sozinha mas sim, representando o meu país e toda a classe artística brasileira.
L: Acha que é conhecida em Cabo Verde mais como actriz, ou como cantora?
PG: Claro que é como actriz, mas uma coisa não invalida a outra.
L: Como caracteriza a sua personagem n’Os Mutantes?
PG: Ai, uma sofredora, agora ela fugiu finalmente e está em paz. Mas, Helga sofreu demais, fugiu de mutante, lobisomem, homem vampiro, cobra, coitada, (risos). E o poder dela é ser mulher, de poder procriar seres humanos e acho que todas as mulheres são poderosas.
L: Das duas tatuagens que mostra nos seus braços, uma delas é de Jesus Cristo. Então, é religiosa ou tem outro significado?
PG: Sou bastante religiosa. Tenho Jesus sempre no meu Coração. A outra é Francisco o nome do meu filho que tem 13 anos, que amo tanto.
L: Tem fama de ser boa em matéria de gatos. Então, conheceu algum gato aqui em Cabo Verde, depois de percorrer quatro ilhas?
PG: (hahahha) Realmente há muito homens bonitos aqui, mas eu sou uma mulher comprometida. Inclusive, já falei para as minhas amigas que aqui, só tem, como diz no Brasil, “negrão lindo”, cada um mais bonito que o outro.
L: Como é fazer sucesso em Cabo Verde?
PG: A partir do momento em que as pessoas me conhecem pela TV é muito importante, mas para mim, de verdade, ficava mais feliz estar próximo desse público através da minha música, para podermos cantar, dançar e desfrutar da minha verdadeira pessoa: porque essa sim é a verdadeira Preta Gil.
L: Qual é o seu maior sonho?
PG: O que conheci agora, por exemplo. Poder cantar, levar a música brasileira a outras pessoas, fazer as pessoas viverem um pouco do meu trabalho. Sou muito realista e as minhas ambições são do dia-a-dia.
L: Em relação ao HIV/Sida e Drogas qual é a mensagem que deixa para os jovens?
PG: Sou uma mulher completamente contra drogas e saudável. Acho que o uso de camisinha é fundamental, e temos que ter a consciência e não ter vergonha de nos protegermos. É um direito que todo o mundo tem. Eu me protejo e apelo a que todos se protejam.
L: Mensagem para as mulheres cabo-verdianas?
PG: Acho que a mulher tem sempre que se valorizar, defender a sua integridade, assumir o seu poder de decisão de poder ter seu espaço, auto-estima, de se cuidar e olhar para as suas raízes, olhar-se no espelho e dizer que a mulher negra é referência para o mundo - são as mais bonitas que existem.
Ana Barros