Victor Borges escreveu aos dirigentes associativos da diáspora no momento de deixar o Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades, depois de vários anos à frente desse departamento do Estado de Cabo Verde. Uma carta, datada de 30 de Junho passado, que só agora chega ao nosso conhecimento e que pelo conteúdo asemanaonline entendeu por bem publicar.
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Praia, 30 de Junho de 2008
Aos dirigentes associativos, lideres e membros das comunidades cabo-verdianas no exterior.
Caros conterrâneos
Ao terminar as funções de Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades ressinto a necessidade de vos fazer chegar esta comunicação. É o mínimo que possa fazer, após Quatro anos de contacto Intenso e quotidiano com as comunidades cabo-verdianas e seus desafios. Para mim deixar de fazer parte do Governo de Cabo Verde não significa, de maneira nenhuma, o fim do contacto e diálogo, pois, a emigração e as comunidades cabo-verdianas vão continuar, como sempre estiveram, no centro das minhas reflexões e indagações pessoais. E, por isso, estou certo de que os nossos caminhos vão se cruzar constantemente.
Não penso que este seja momento para retomar e discorrer sobre as diversas questões que discutimos durante esses quatro anos. Dito isto, dificilmente poderia evitar de evocar algo que sempre dizia nos nossos encontros, mensagens radiofónicas e televisivas: fundamentai que, individual e colectivamente, coloquemos e respondamos as seguintes questões: o que somos, o que seremos, o que queremos ser (eu, meus filhos, netos e descendentes) nos diferentes países onde vivemos, daqui a vinte, trinta, cinquenta ou mesmo cem anos. A resposta a estas questões, falsamente simples, constitui, todavia um ponto e momentos referenciais para a definição de estratégias de desenvolvimento pessoal, familiar e socio-económico das comunidades cabo-verdianas no exterior, nas Américas, na Europa, na África ou em qualquer parte do mundo.
Todos estarão lembrados da minha insistência em relação à importância da plena integração nas sociedades de acolhimento. Naturalmente que B integração não significa denegação das origens ou da condição de cabo-verdiano. Sabemos também que não há integração automática ou inteiramente espontânea. Ela requer posições, atitudes e práticas individuais e colectivas consistentes e consequentes, Nesta perspectiva e de forma recorrente abordámos nos nossos encontros vários factores e condicionantes da integração, a saber:
O domínio da língua e dos códigos culturais e simbólicos do meio envolvente. Este é um requisito básico para qualquer projecto de vida nos países de acolhimento.
A educação e a formação - para os mais velhos e sobretudo para as novas gerações. Ë vital para o desenvolvimento e a afirmação, individual e colectiva, que as comunidades cabo-verdianas possam produzir, em quantidade e qualidade, quadros, técnicos, engenheiros, médicos, professores, investigadores. desportistas, artistas de alto nível úteis aos países de acolhimento e a Cabo Verde.
A definição e a aplicação no quotidiano de estratégias individuais de participação na vida social, cultural, económica e política dos países de acolhimento.
A legalização, o acesso à segurança social e o respeito escrupuloso das leis, regras e costumes dos países de acolhimento constituem, igualmente, elementos indispensáveis para uma vida estável. Face a injustiças, deveremos poder utilizar do quadro legal dos países de acolhimento para fazer valer ou repor direitos.
A importância da habitação que deve ser vista em termos de custos, conforto, segurança e, igualmente, em termos de oportunidades de socialização e de educação dos filhos.
O associativismo responsável, comprometido, actuante e aberto à sociedade envolvente. Continuo pensando que o fechamento sobre si é uma armadilha que nos afasta da solução dos problemas.
A ponte a ser estabelecida entre o segmento integrado e bem sucedido e o segmento da comunidade confrontado com dificuldades ou obstáculos à integração e ao desenvolvimento. Esta é uma forma extremamente eficaz e sem custos de estimulação, de criação de autoconfiança e de reposição de sonhos de vida no selo das crianças e adolescentes nos segmentos menos integrados das comunidades cabo-verdianas.
O investimento das poupanças em actividades produtivas, em Cabo Verde e nos países de acolhimento. Neste sentido falámos da vantagem de iniciativas económicas independentes, da criação de micro, pequenas e médias empresas em contraponto à tendência predominante de trabalhador por conta de outrem.
A promoção e o desenvolvimento da cultura cabo-verdiana conciliando tradição, modernidade, renovação e enriquecimento e evitando a armadilha de colocar a cultura cabo-verdiana na marginalidade.
A responsabilidade individual e a importância de projectos de vida assumidos em actos e palavras foram sempre frisados.
E naturalmente a solidariedade activa com os patrícios da diáspora dita do Sul.
Esses factores e pistas são fundamentais para o sucesso dos vossos e nossos projectos individuais, familiares e políticos de longo prazo. Por outro lado constituem argumentos de grande relevância para o Governo de Cabo Verde manter o diálogo construtivo com os países de acolhimento, sustentar as suas posições e defender medidas adequadas à nossa situação e expectativas. A evolução recente dos fluxos migratórios mundiais, é vivida como uma inefável e nebulosa interpelação e, muitas vezes, como ameaça pelos países de destino. Consequentemente. o diálogo sobre a emigração tomou-se intricado e arrevesado.
Para um pequeno pais como Cabo Verde só poderemos fazer diferença e salvaguardar os nossos objectivos através do trabalho, do rigor, da disciplina, da capacidade de adaptação e da aprendizagem e da nossa vontade de progredir. Neste sentido todos os emigrantes são embaixadores de Cabo Verde e um factor da imagem de Cabo Verde, em recomposição permanente.
O sucesso da emigração depende da intervenção de vários actores. Citaria três fundamentais: o governo dos países de origem, o governo dos países de destino com as suas políticas e práticas reais e os próprios emigrantes. O governo de CV tem actuado com grande empenho e determinação colocando as questões da emigração e das comunidades cabo-verdianas no centro do dialogo político com os governos e organizações dos países de acolhimento, explicitando a nossa visão e defendendo os interesses e posições dos cabo-verdianos. Os avanços conseguidos são notáveis e promissores. Entrementes e, como sempre vos disse, o Indivíduo deve ser o agente principal do seu destino. Nada substitui as atitudes e práticas individuais para a determinação das nossas vidas. Felizmente, e isso desde os primórdios da aventura migratória, a grande maioria dos cabo-verdianos assume com aprumo as suas responsabilidades e, por isso, só posso felicitar-vos e encorajar-vos a prosseguirem nesta via.
Ao evocar as questões e aspectos fundamentais, diria estratégicos, para o futuro das comunidades cabo-verdianas no exterior, não quero, de maneira nenhuma esquecer as vossas reclamações e questões recorrentes e do quotidiano, ligadas aos transportes. registo civil, alfândegas e atendimento nas missões diplomáticas e postos consulares.
Muitos iniciativas foram protagonizadas nesses domínios específicos e acredito que as estruturas competentes do MNEC, designadamente o Instituto das Comunidades (IC) e a Direcção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades (DGACC) e as Missões Diplomáticas e Postos Consulares irão continuar os esforços de diálogo e de concertação com os serviços e Departamentos do Estado em Cabo Verde, tendo em vista a clarificação das questões pendentes, sua resolução ou tomada de posição, de forma a relevarmos definitivamente algumas ambiguidades ainda existentes.
Termino reafirmando o prazer que tive em conviver, dialogar e debater convosco durante esses últimos quatro anos. Peco-vos ainda que sejam portadores desta mensagem aos membros das vossas respectivas associações e organizações.
Queiram aceitar, caros patrícios, os meus agradecimentos e saudações amigas. Um abraço e até sempre!
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