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História : O PADRE ANTÓNIO VIEIRA EM CABO VERDE
em 11/02/2008 (1108 leituras)

Por ocasião da celebração, no Brasil, do IV Centenário do nascimento do Padre António Vieira, jesuíta, pregador, missionário, homem de Estado e clássico da língua portuguesa, a Embaixada de Cabo Verde no Brasil, gostaria de associar-se a essa efeméride, tanto que este prelado esteve nas ilhas crioulas, ainda que de passagem, mas onde, designadamente na ilha de Santiago, pregou, na então cidade da Ribeira Grande, hodiernamente conhecida por Cidade Velha, numa das mais antigas igrejas de Cabo Verde, a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mandada construir, em 1495, por uma Confraria de negros do mesmo nome.

Para quem nunca ouvir falar da antiga cidade da Ribeira Grande, ela foi construída a partir de 1462, data do início da colonização do arquipélago cabo-verdiano, colonização no sentido romano do termo, através da sua ilha maior, a de Santiago, tendo ganhado foro de Cidade em 1533. Nessa data foi criado o primeiro Bispado em África, com sede nesse mesmo burgo, sendo igualmente considerada a primeira cidade construída por europeus (portugueses) ao sul do deserto de Sahara. Ela é hoje aceite, também, por toda a população de Cabo Verde, como sendo o berço da Nação e da cabo-verdianidade,

Pelo papel que desempenhou, ao logo dos séculos, como placa giratória do comércio do Atlântico, entreposto escravocrata e notável centro de experiências nos trópicos, onde a mestiçagem humana, entre brancos e negros teve uma expressão e uma densidade inauditas, o sítio está à beira de ganhar o título de Patrimônio da Humanidade, se a UNESCO aceitar, como se almeja, a candidatura que foi apresentada pelo Governo de Cabo Verde em Janeiro último.

A passagem do Padre António Vieira por Cabo Verde, vindo de Lisboa, aconteceu em 1652, quando regressava ao Brasil, para dirigir as missões jesuítas no Maranhão, que era então um “Estado” separado do Brasil, tendo desembarcado em S. Luis em 1653.

Nas ilhas de Cabo Verde admirou uma população de negros civilizados falando português, como se constata através de uma carta dada à estampa pelo Padre António Brásio, este também jesuíta.

A referida missiva foi publicada num artigo, intitulado, “O padre António Vieira e as missões de Cabo Verde”, inserto na revista Portugal em África, 2.ª série, ano III, n.º 17, 1946, pp. 298 e seguintes.

Comprazendo-se com a sabedoria dos padres locais, cuja compostura e saber, dizia ele, faziam inveja aos melhores do Reino, escrevia o seguinte António Vieira: “Há aqui clérigos e cônegos tão negros como azeviche; mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer invejas aos que lá vemos nas nossas Catedrais...”

Nessa mesma carta, ele dizia desejar poder ficar em Cabo Verde, onde, segundo as suas palavras, havia muito a fazer em matéria de evangelização. Sabia, no entanto, não ser possível esse desiderato, já que voltava ao Brasil praticamente escorraçado pela Companhia a que pertencia, por ter criado muitas inimizades e uma difícil situação dentro da ordem religiosa, na medida em que tinha tomado partido da coroa contra os próprios jesuítas na questão da organização da Companhia em território português. Aliás, só foi salvo da expulsão da Companhia, que chegou a ser decidida pelo geral (1649), graças a uma intervenção cominatória de D. João IV. Sabe-se, a este propósito, que Vieira gozava dos favores da corte. Portanto, a vinda do Padre António Vieira para S. Luís do Maranhão foi, afinal, uma solução de compromisso, que o conservava na Companhia, mas o afastava da corte.

Para terminar, apenas uma pequena questão, suscitada pela avaliação muito expressiva feita por Vieira aos padres que encontrou em Cabo Verde, na ilha de Santiago. Essa sua apreciação terá alguma coisa a ver com o facto dele, entre os seus ascendentes, ter uma avó negra ou mulata? De facto, segundo António José Saraiva, no retrato que se conserva do Padre Vieira, gravura realizada sobre um desenho tirado do natural, é patente esta origem mestiça, que é, aliás, a de muitos outros portugueses e testemunha da assimilação da população negra transportada a Portugal pelo negócio da escravatura. E vem a talhe de foice dizer que, na Lisboa quinhentista, 10% da população era negra. Entre essa população, por exemplo, segundo descrições de Sasseti, se encontravam escravos ladinos de Cabo Verde, muito apreciados, porque sabiam “fazer tudo, até tocar música. Mas são soberbos e altivos”. Entenda-se, porém esse comportamento como relação comparativa entre ladinos e boçais, estes últimos sem terem ainda nenhum aprendizado da língua ou da cultura dos senhores.

Não se imagine, porém, perante a questão antes suscitada, que Vieira era contra a escravatura negra. Na verdade, ele considerava a mão-de-obra escrava, segundo uma frase dele mesmo, a “alma” do Brasil. Ele era um homem do seu tempo.

Eis em traços muito breves, alguns elementos acerca da passagem do Padre António Vieira por Cabo Verde e que quisemos partilhar com o público nesta oportunidade. Ainda que ele não tenha vivido nas nossas ilhas, nem tenha deixado traços tão visíveis na sociedade crioula cabo-verdiana, quisemos, ainda assim, nos associarmos às comemorações do IV Centenário do nascimento desta grande figura e cultor das letras em português, considerado por Fernando Pessoa o grande “imperador da língua portuguesa”.

Cabo Verde associa-se, pois, a esta comemoração na medida em que ele é também dos nossos pólos de união.

Brasília, 11 de Fevereiro de 08.



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A 5 de Julho de 1975, Cabo Verde ascendia à independência nacional, depois de um duro e longo combate de libertação, que os limites geográficos impuseram acontecer fora do seu território. Sabe-se que o caminho do futuro é, necessariamente, interminável. Às gerações que terão o dever e a obrigação de garantir o porvir da Nação não faltará trabalho. O esforço deve ser contínuo e permanente, tantos são os desafios que terão de enfrentar, num país carente de tudo, onde a falta de recursos é crónica. Porém, ao olharmos para trás, e podemos fazê-lo orgulhosamente, considerando o ponto de partida, a largada, só podemos acreditar que seremos capazes de enfrentar e vencer todas as dificuldades, não fosse o cabo-verdiano um povo vencedor, porque temperado a ultrapassar todas as agruras que a História lhe impôs. E não foram poucas, considerando a longa duração e a realidade! Muitos se insurgem contra o passado desconhecendo que esse mesmo passado nos cerca a cada passo. Ele se torna presente no quotidiano, sem que disso se dê conta. A verdade é que só se pode avaliar, crítica e convenientemente, o percurso andado, quem for capaz de olhar para trás. O que Cabo Verde é hoje não é obra de feliz acaso. É fruto de muito trabalho, dedicação, esforço e perseverança de quem acreditou ser possível a utopia/aventura da independência em 1975, porque partimos do zero e não tínhamos outro recurso que não fosse o indómito povo das nossas ilhas, sofredor mas esperançoso de que futuro seria diferente. E está sendo, tanto porque o seu povo sente e vê que a independência valeu a pena! Talvez, aos olhos dos mais novos, metade da população actual tem menos de 20 de idade, se fale dos muitos problemas que ainda persistem em muitas áreas No entanto, não foram poucos os avanços conseguidos nos últimos 35 anos da nossa existência como Nação independente. Há apenas 60 anos, 1/3 da população do arquipélago morria à fome. Há menos de 40 anos, dois terços da nossa população era analfabeta; as escolas eram para uma pequena elite; tínhamos à volta de 6 médicos; a esperança média de vida era de 45 anos; a previdência social era inexistente e o PIB per capita era US 150 dólares. São conquistas da independência, que não mais se morresse à fome; que o analfabetismo seja hoje residual no país; que a escolarização bruta seja a uma taxa de 115%; que a esperança de vida tenha alcançado os 75 anos e a mortalidade infantil tenha diminuído drasticamente; a previdência social abranje, hoje, mais de 30% da população e existam perto de 600 médicos, enquanto multiplicamos o PIB per capita por mais de 15, passando, por isso mesmo, de país menos avançado para um de rendimento médio. Por isso se diz, hoje, com orgulho, que Cabo Verde é uma Nação vencedora, sem triunfalismo, cientes de que muito caminho temos ainda pela frente, e certos de que, em democracia, sistema político abraçado pelos cabo-verdianos, quanto mais se avança, com a formação, educação, qualificação, quanto mais se afasta da ignorância e da miséria, serão cada vez maiores as exigências dos cidadãos, que devem ter bem presente, no entanto, os limites da capacidade real do país para responder às legítimas aspirações do seu povo. Cabo Verde mantém-se farol na luta pela dignidade de todos os cabo-verdianos, dentro e fora do território nacional, no abraço a povos amigos de vários quadrantes, que se mantêm suporte em ajudas e apoios para o seu desenvolvimento. A garantia é que, como sempre, saberemos merecer a confiança dos nossos parceiros, dando o devido caminho ao que deles recebemos, apenas em benefício do bem-estar da população. Sendo o seu povo a riqueza desta Nação, lutemos, pois, para que cada cidadão possa alcançar o seu máximo de potencialidade no espírito do Bem Nacional.

O Embaixador

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