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Cultura : História de Cabo Verde para jovens lançado em Brasília
em 07/12/2013 (2305 leituras)

Daniel Pereira lançou na terça-feira, 3 de Dezembro, numa cerimónia que teve lugar no Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, capital federal do Brasil, o livro “Um olhar sobre Cabo Verde – História para Jovens”. O autor, historiador e diplomata de carreira, que acaba de encerrar a sua missão nas terras de Vera Cruz, diz que a obra “não é só para jovens cabo-verdianos, mas para todo e qualquer cidadão interessado em interiorizar a sua História e, por via disso, reconciliar-se com ela”. Em Cabo Verde, o lançamento deste livro que traz o selo da Thesaurus, uma das mais antigas e prestigiadas editoras de Brasília, deve acontecer no próximo dia 17 de Dezembro, na Biblioteca Nacional, cidade da Praia.
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COMENTÁRIOS
UM OLHAR SOBRE CABO VERDE
PEREIRA, Daniel. Um olhar sobre Cabo Verde: história para jovens.


Um historiador preocupado com legado para a juventude que, em algum momento, influirá sobre os destinos do seu país
O livro é poético, revela sentimentos, orgulho nacional/nacionalista
Revela também alto conhecimento e rico “apoio documental”.
A história, assim, não é mero arcabouço instrumental para a compreensão do presente, e sim um processo COLETIVO de reconstruções que indicam caminhos – OU eixos prospectivos – para a educação, a cidadania, os direitos, a CULTURA.

De forma didática procura esclarecer conceitos como Império, imperialismo, a escravatura como fundamento socioeconômico, a mundialização da economia (à luz de um conceito mais francês do que anglo-saxão), colonialismo (p. 185).

Aponta raízes históricas das culturas introduzidas nas ilhas – cultura agrícola baseada em pouca diversidade inicial, alimentar (“em Cabo Verde, oscampos são mediterrâneos, na forma como são trabalhados, as plantas americanas e a alimentação africana – p. 53), formação étnica (as ilhas eram desérticas e não havia populações nativas, diferentemente do Brasil), principalmente gerando a mistura entre negros e brancos, que compôs historicamente a formação étnica de Cabo Verde. Os “poucos (muito poucos) brancos residentes juntavam-se “à mulher negra, de que resultou o mestiço (p.75). E foram esses mestiços, essencialmente, os “brancos de terra” que assumiram a administração da terra. Essa ascensão da elite crioula deu-se muito antes de esse processo ocorrer em vários países. No Brasil, ainda se percebem ranços de uma elite racista, dado o prolongamento da escravidão e de suas conseqüências. Em Cabo Verde, segundo Daniel Pereira, essa formação étnica mestiça, agregada à quase ausência do branco, fez com que a sociedade caboverdiana fosse “levada à ‘democratização’, à horizontalidade (...) social, onde ao mestiço ‘não molestavam os complexos de inferioridade’”(p. 77), o que de certo modo não permitiria o alastramento de qualquer racismo.

Em um país onde tudo era importado – inclusive sua população –, foi necessário um grande esforço histórico para construir a nacionalidade. E a despeito de um processo de formação étnica menos complexo do que o brasileiro, por exemplo, em termos da quantidade de etnias e raças envolvidas no processo de miscigenação, teve suas primeiras levas de “protonacionalismo” apenas após o fim da II Guerra Mundial, quando ventos anticolonialistas varriam também outras partes do mundo. De certo modo, o nacionalismo foi precedido de uma conscientização, por parte das elites, da situação de colonizados (p. 205), e do desenvolvimento de um sentimento que se tornou movimento “nativista” (p. 208) e favoreceu o despertar da consciência nacional (a partir do movimento Claridoso, vigorante entre 36 e 70) (p. 220).

A escravidão, que marca a história brasileira de modo indelével, também o faz em relação a CV. Cabo Verde teve várias práticas semelhantes ao que ocorreu no Brasil (maus tratos, feitores, fugas, alforrias), mas inovou nos pleitos a certo tipo de cidadania por parte dos “baços e pretos”, ao menos desde os 1500 (p. 70).
Também a existência de capitanias (HEREDITÁRIAS???) – no Brasil funcionaram por tempo limitado e tiveram pouca eficácia, em parte devido ao tamanho do território, problema que CV não enfrentava. Mas em CV, não funcionaram bem tendo em vista os diversos conflitos emanados das incertezas da colheita, das disputas entre partes contratantes, entre outros motivos (p. 85).
Outros problemas, como fosso entre ricos ou detentores do poder econômicos e pobres não detentores; corrupção, são todos elementos presentes lá e cá (.p. 86).

Cabo Verde era um entreposto relevante no “cruzamento das rotas de navegação do Atlântico” (p. 62), o que fazia com que fosse também um ambiente propício à interação entre diferentes culturas. Perdeu essa relevância uma vez que as rotas também tornaram-se secundárias, com a perda de poder de Portugal, já a partir do século XVI. Ao perder a posição como “entreposto” de venda de escravos, a situação se agravou (p. 100).
Mas é exatamente a partir daí, do abandono das ilhas, do ostracismo, que a ideia de Nação começa a tomar forma (p. 106).

Assim como se deu em relação a Angola, quando da Independência do Brasil, foi condição dada por Portugal para conceder o reconhecimento o afastamento em relação às colônias africanas. Isso se explica em parte dada a adesão, como no movimento separatista em Santiago, 1823, à ideia de depor a Junta Governativa da Província de Cabo Verde, “declarando-se a favor do Brasil” (p. 135 e 137).

Há que se notar os surtos de emigração, seja ela espontânea ou forçada. O primeiro deles bastante precoce, do século XV, já tinha em seu fundamento a necessidade de sair para prover quem permanecesse nas Ilhas do que fosse fundamental para a sobrevivência.
Interessante como a formação cultural de Cabo Verde é marcada pelo aparente paradoxo dos “Encontros e Despedidas”, de que séculos depois fala o brasileiro Milton Nascimento: “Tem gente que chega pra ficar
/ Tem gente que vai pra nunca mais
/ Tem gente que vem e quer voltar/ 
Tem gente que vai e quer ficar
/ Tem gente que veio só olhar
/ Tem gente a sorrir e a chorar// E assim, chegar e partir
/ São só dois lados da mesma viagem”.
Tânia Maria Pechir Gomes Manzur


Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive. Fernando Pessoa


“O livro Um olhar sobre Cabo Verde – História para Jovens é expressão de amor e da vivência quotidiana de um filho da terra que mesmo distante, em terras brasileiras, seu amor se faz presente, como diria Sócrates, a ausência física da sua terra não é empecilho para presentificá-la na mente, no coração e nos seus escritos”. É assim que Cleria Botelho da Costa, professora de História na Universidade de Brasília, anuncia o mais novo livro de Daniel Pereira.

A obra, afirma a docente, cativa “pela forma de narrar, pela linguagem simples e agradável utilizada pelo embaixador Daniel. Dessa forma, o autor parece aceitar que as sensibilidades são partes constitutivas do ser humano, portanto, não devem ser excluídas do conhecimento histórico e, enquanto tais, elas devem ser trabalhadas no ensino de História”. Daí que “sob o meu olhar aí reside um dos grandes méritos da obra”, escreve Cleria Botelho da Costa, acrescentando que nem por isso o autor é menos rigoroso.
Diz a professora da Universidade de Brasília que Daniel Pereira traz “inúmeras histórias do passado para o tempo presente oportunizando não apenas o conhecimento do passado do seu país, mas também abrindo possibilidades para que o aluno ao conhecer a história do seu país, mais se adentre no conhecimento da história de sua própria vida, na história de sua família, de seu bairro, de sua nação e assim, reforce o amor pelo país, a sua identidade de cabo-verdiano”.
Porque “a reconstrução do passado no presente torna a educação um instrumento de formação para a cidadania, uma forma de torná-la um direito de todos, um direito humano. Conhecer o passado para ajudar a melhor entender o presente e planear o futuro; conhecer passado e presente para conhecer a nós mesmos, a nossa escola, o nosso bairro, o nosso país para nos tornarmos sujeitos da história, entendo ser esta uma das grandes contribuições do referido livro ao ensino de história em Cabo Verde”.
Daniel Pereira conta que decidiu dedicar dois anos da sua vida a montar este livro depois de atestar que não existe qualquer estudo histórico sobre Cabo Verde adaptado à camada juvenil. “Esta simples, mas pesada constatação, pelas suas naturais consequências, leva a que os jovens cabo-verdianos saiam do Sistema Educativo que, além do mais, funciona como um funil, sem a formação histórica imprescindível à modelagem correcta e harmoniosa do carácter e da personalidade, sem a qual dificilmente podem ter uma intervenção actuante na sociedade e a percepção do seu posicionamento na sua Região e no Mundo”.
É urgente mudar este estado de ignorância porque, justifica Daniel Pereira, “um dos maiores problemas culturais dos países de origem colonial é o questionamento da sua identidade, sobretudo no mundo hodierno, em que a globalização torna particularmente difícil a sustentação de uma cultura própria face às culturas hegemónicas que, através dos audiovisuais e não só, nos desafiam permanentemente”. Ora, a história colectiva de um povo é, sem dúvida, a mais importante componente da sua identidade.
Logo, deve ser “convenientemente interiorizada e repetida às sucessivas gerações”. “Porque numa terra como Cabo Verde, onde mais de 50% da população têm 20 anos ou menos de idade, essa memória corre o risco real e efectivo de esvair-se rapidamente. Por todas essas e outras mais razões não menos ponderosas, a apreensão da história do povo das nossas ilhas nas escolas se revela crucial para o futuro identitário do país e para a formação da consciência cívica da sua população”, conclui Daniel Pereira.
Teresa Sofia Fortes



Mais um livro de Daniel Pereira


Daniel António Pereira, sem sombra de dúvida, pode ser considerado o mais prestigiado historiador de Cabo Verde na atualidade. Atesta o que afirmo a sua vasta obra, que cobre um amplo espectro diacrônico da história de seu país: A situação da ilha de Santiago no 1º quartel do século XVIII; Estudos da História de Cabo Verde; Marcos cronológicos da Cidade Velha; A importância histórica da Cidade Velha; todos na segunda edição, além de Cabo Verde, Apontamentos históricos sobre a ilha do Fogo; Memória de Cabo Verde do Governador, Joaquim Pereira Marinho & Outros Textos; Das relações históricas Cabo Verde/Brasil.
Contudo, uma aura especial cerca este mais recente livro, Um olhar sobre Cabo Verde: história para jovens (Brasília: Thesaurus, 2013), resultado de antigo projeto acalentado com todo o cuidado e carinho. E ficamos felizes que o Brasil o publique, num momento em que o Embaixador da República de Cabo Verde no Brasil, condecorado e homenageado pelos dois países, e, mais do que tudo, o amigo da terra brasilis que aprendeu a amar (e que aprendeu a amá-lo) nestes quase sete anos, despede-se da convivência entre nós.
Antes de comentar a obra hoje em destaque, faço também menção ao trabalho da embaixatriz Sara Pereira, intelectual e escritora renomada, atualmente envolvida atividades relevantes na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas que teve atuação intensa ao lado do esposo, para que Cabo Verde, através da Embaixada, divulgasse a sua cultura e o seu exemplo de democracia, que constituem parte da sua grandeza. Esta família tornou-se mais uma família brasileira, irmã, a dividir conosco o desenvolvimento de dois países irmãos.
Daniel Pereira hoje completa um ciclo para alçar outros voos, com o fôlego e a competência que marca sua personalidade.
A obra Um olhar sobre Cabo Verde: história para jovens traz-nos, com uma estrutura didática acrescida de uma visão prospectiva e uma dose de paixão, as principais etapas da construção e do desenvolvimento de um país pequeno na sua área geográfica, mas com uma vocação internacional desde a sua formação como povo e como cultura, a partir das relações com o mundo exterior ao arquipélago.
O livro apresenta Cabo Verde, nação quase desconhecida dos brasileiros e pouco conhecida por muitos cabo-verdianos (face à distância entre as dez ilhas, que, via de regra, dificulta ao cidadão comum conhecer toda a extensão do pequeno país), ainda porque os manuais adotados na universidade (alguns divulgados aqui no Brasil) e nas escolas trazem, muitas vezes, perspectivas que chamamos pós-coloniais, ou seja, contaminadas de um ponto de vista colonizador.
Necessária se faz, para os jovens, uma descolonização das mentes, pelo conhecimento da sua história na ótica do africano colonizado, tarefa que todos os livros de Daniel Pereira têm cumprido com mestria e acuidade documental. Viajando pelos documentos, o regresso ao passado para melhor compreender o presente, como nos propõe a alegoria do anjo da história, na postulação de Walter Benjamin, reconhece os progressos e a tecnologia do hoje, mas volta a cabeça para um ontem que ajudou a construir vários amanhãs.
A forma de contar a história do seu povo, entremeando-a com a Literatura, agrada-me sobremaneira, por reconhecer que o discurso literário cabo-verdiano representado por Jorge Barbosa e pela geração da revista Claridade, por exemplo, assim como por Eugénio Tavares, Pedro Monteiro Cardoso, José Lopes, Luís Loff de Vasconcelos, Baltasar Lopes, Manuel Lopes, dentre outros, tem buscado representar os saberes e, especialmente, os fazeres que caracterizam a sociedade crioula na sua especificidade e identidade.
A interlocução do historiador Daniel Pereira com a literatura se faz, ademais, de maneira consequente, diferenciando-se, com distinção, de muitas análises que considero equivocadas de fenômenos literários, como aquelas que cobram posturas políticas explicitamente engajadas de gerações que, sob censura feroz do regime salazarista, ainda não podiam expressá-las, caso da primeira geração de escritores da Claridade (1936), na qual se incluem Jorge Barbosa, Baltasar Lopes e Manuel Lopes.
Os argumentos de Daniel Pereira são decisivos e pertinentemente documentados para o esclarecimento de “pseudopolêmicas” relativas a este período fundamental para a formação de uma consciência da cabo-verdianidade e o parabenizo pela excelente leitura da história literária do país, que será extremamente útil também para os meus alunos brasileiros de Literatura Cabo-verdiana.
Questões importantes são discutidas no livro, como a mestiçagem, a escravatura, a posição estratégica de Cabo Verde nas rotas internacionais de navegação e comércio, a importância e a decadência do Porto Grande, as manifestações culturais (e enfatizo aqui os capítulos VIII e XI) que demonstram a “contribuição essencial da ÁFRICA” para o povoamento e a construção identitário-cultural do arquipélago, a emergência da consciência nacional e os rumos pró e pós-independência.
Elaborada em papel couché, com farto material visual e anexos documentais, além de uma bibliografia específica e atualizada, considero a obra fundamental para o estudo da identidade plural cabo-verdiana, tanto no que diz respeito à sua história, quanto no que toca à sua cultura e a momentos seminais da sua literatura, minha área específica de atuação.
Por todos esses motivos e muitos outros, saúdo o lançamento dessa obra, com a certeza de que constituirá mais uma referência para o conhecimento de um Cabo Verde de desenvolvimento médio, mas que não esquece o seu passado. Saúdo também o embaixador e amigo, agradecendo por tudo o que deixou, de Cabo Verde, para o nosso Brasil.
Mantenhas, Daniel! Você estará sempre entre nós...

Simone Caputo Gomes


Comentário sobre a obra “Um Olhar sobre Cabo Verde – História para Jovens”, de Daniel A. Pereira

Assim que comecei a ler as primeiras páginas do livro “Um Olhar sobre Cabo Verde – História para Jovens”, fui tomada pela lembrança do tempo em que iniciei minhas pesquisas sobre a sociedade cabo-verdiana. Nos idos de 1998, como uma jovem estudante em um programa de pós-graduação em antropologia na Universidade de Brasília, eu buscava avidamente por notícias sobre aquele país que configurava o cenário dos fenômenos que eu intencionava investigar. Mas a dificuldade de acesso a informações sobre Cabo Verde era notável. Eu contava, é certo, com o auxílio de alguns sítios na Internet. Porém, mesmo a Grande Rede não se fazia tão eficiente àquela época.
Tendo essa memória como pano-de-fundo, é com grande satisfação que hoje celebro o lançamento de um volume todo ele dedicado à história de Cabo Verde, publicado por uma editora brasileira, a Thesaurus. A obra é resultado de uma conjugação feliz de um Embaixador cabo-verdiano que é também um acadêmico. Daniel Pereira, ao longo de sua estada no Brasil como representante maior da República de Cabo Verde, não mediu esforços para conciliar as atribuições do mundo diplomático com a paixão pelo ofício de historiador.
No breve comentário que aqui esboço sobre a obra em questão, eu gostaria de destacar dois aspectos principais que, a meu ver, fazem desse livro uma publicação de grande relevo.
Em primeiro lugar, vemo-nos diante de uma obra dedicada especificamente ao público jovem. É um trabalho de linguagem acessível, que cuidou de privilegiar o uso abundante de imagens. Tendo-se em conta a supervalorização da imagem no universo dos jovens de hoje, esta se mostra uma estratégia importante para a transmissão do conhecimento que encerra a obra.
Como afirma o autor, o livro desempenha um papel fundamental ao possibilitar ao jovem cabo-verdiano conhecer para melhor compreender sua própria história. É a recuperação de um passado, “para melhor se poder reencontrar enquanto povo, senhor do seu devir e dono do seu porvir” (p. 22). Conhecendo a história de seu país, o jovem cabo-verdiano pode fortalecer seu sentimento de pertença a uma coletividade, dando sentido ao seu presente e direcionamento ao seu futuro.
Ainda – devo acrescentar – a obra se configura como preciosa leitura para o jovem brasileiro que almeja alimentar seu conhecimento sobre outras realidades. E faz-se, de fato, leitura obrigatória para os estudantes brasileiros que começam a olhar mais atentamente para o cenário cabo-verdiano, no âmbito dos projetos de cooperação que têm unido os dois países. O livro vem fomentar o diálogo entre duas nações de histórias partilhadas e interesses mútuos.

O segundo ponto que merece especial consideração em uma reflexão sobre essa obra de Daniel Pereira é o tratamento que dá à formação do Estado Nacional no caso cabo-verdiano. A obra é um trabalho de fôlego que busca condensar toda a história de um Estado-nação – do descobrimento à independência, com a luta de libertação nacional. Trata-se, é verdade, de um “país jovem”, cuja independência data de 5 de julho de 1975. Mas esta é uma afirmação relativa, se considerado o largo caminho percorrido até a concretização do projeto de libertação nacional.
Os Estados Nacionais já foram tão naturalizados por nós que por vezes esquecemos o fato de que é este um modelo político-administrativo relativamente recente na história da humanidade. Surgido na Europa, foi exportado para o resto do mundo, de modo que hoje se torna quase impossível pensar num povo soberano de outra maneira que não pela via da consolidação de um Estado-nação. Mas cada caso particular de aplicação deste modelo se fez com desafios e conquistas próprios, numa experiência única. O que Daniel Pereira nos apresenta é a particularidade do caso cabo-verdiano.
Em Cabo Verde, como bem diz o autor, “tudo ou quase tudo teve de vir de fora” (p. 43). Mas as Ilhas são, ao mesmo tempo, um centro de “difusão de plantas, animais e homens” (p. 52). Com sua localização geoestratégica privilegiada, o arquipélago conformou um nó, no entrecruzamento de redes atlânticas, inserido ativamente nos processos de circulação global. Como não mencionar, no caso cabo-verdiano, o impacto do fenômeno emigratório, que tão diretamente atinge essa população?
Vale destacar, porém, que o principal aspecto desses encontros societários ocorridos nas ilhas de Cabo Verde foi sua capacidade de gerar algo único. Da mistura, surgiu um povo de “feição própria”. Cabo Verde não é mais um pedaço de Portugal somado a elementos culturais oriundos da costa oeste africana. É tudo isso e é mais. É Cabo Verde, um povo sui generis, com sua própria maneira de estar no mundo. E Daniel Pereira bem apresenta ao leitor o processo de emergência dessa sociedade crioula. Uma sociedade que, se teve seu passado marcado pelo sistema escravagista, soube dar lugar a uma realidade onde não preponderou a segregação. Uma sociedade onde os próprios mestiços assumiram muito rapidamente os principais postos políticos e econômicos.
De fato, vemos em Cabo Verde a história de uma Nação que precedeu em muito a formação de um Estado. Se a libertação nacional, isto é, a formação de um Estado independente só ocorreu em 1975, desde o século XVII já era possível perceber o surgimento de uma comunidade relativamente coesa, com “um corpo próprio, autônomo” (p. 106). Nesse processo, fundamental foi o surgimento da língua crioula, reforçando nesse povo o sentimento de unidade e sua especificidade com relação às demais nações. Tudo antecipa, no caso cabo-verdiano, a “consciência de sua autonomia cultural” (p. 204). E vemos assim, em Cabo Verde, a história de “uma Nação que pré existia ao Estado” (p. 225) e que, em última instância, reivindicou a formação de um Estado Nacional independente.
Daniel Pereira brinda ainda o leitor com uma série de curiosidades que nos permitem colocar Cabo Verde em perspectiva, dando conta de seu lugar no mundo. É o caso, por exemplo, da menção à passagem do cientista Charles Darwin pela Ilha de Santiago, no século XIX, em meio à viagem que subsidiaria mais tarde sua teoria da origem das espécies.
Com a leitura desse trabalho de Daniel Pereira, observamos, por fim, que toda nação tem uma vida, uma dinâmica própria. Trata-se de uma história que está ainda viva, continuando na mão dos jovens, público a que se destina essa valiosa obra.
Profa. Dra. Juliana Braz Dias
(Universidade de Brasília)



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