O jornal britânico especializado em assuntos económicos “Financial Times” dedicou uma série de reportagens a Cabo Verde, na sua edição de 13 de Novembro passado. A situação económica do país, as paletas de ritmos musicais, e o retrato de algumas figuras políticas, como, Jorge Santos, José Maria Neves e Isaura Gomes, constam do conjunto de trabalhos elaborados pelo FT, que procura entender o que causa a correria dos investidores ingleses para o país do sol e das dunas.
“Os investidores do ramo imobiliário chamam-lhe a ‘febre inglesa’ e sabem exactamente quando começou: Em Fevereiro de 2005 quando o programa ‘A Place in the Sun’ da estação televisiva britânica Channel 4 identificou o arquipélago como uma das novas oportunidades mundiais para investir em segunda casa ou apartamento de férias”. Esta é a introdução do artigo “Crowded by coast lined with construction cranes” (Uma costa povoada de estaleiros de obras), incluída num dossier especial sobre Cabo Verde, que o “Financial Times” publicou em Novembro passado. O namoro entre os ingleses e Cabo Verde começou, aparentemente em 2005, e ainda hoje corre de vento em popa, como dá conta o jornal inglês. “Os preços das casas e terrenos subiram 50 a cem por cento nos últimos dois anos. Um T1 que poderia ser vendido por 50 ou 60 mil euros há algum tempo atrás pode ser agora comprado a 90 ou cem mil euros. Algumas propriedades já mudaram de mãos duas ou três vezes antes mesmo da sua construção estar terminada”, salienta o jornalista David White.
Conversando com alguns investidores britânicos, que têm propriedades no Sambala Village, em Santiago, por exemplo, o FT chegou à conclusão, no entanto, que Cabo Verde ainda não tem condições para sustentar o “turismo de alto nível” que quer desenvolver. “Faltam transportes e estabelecimentos de saúde. Quase tudo é importado, desde o cimento aos tijolos, e até mesmo areia”.
Este crescimento acelerado do turismo contraposto à ausência de recursos é analisado no artigo “In danger of attracting too many visitors” (Em risco de atrair visitantes a mais). Aí o presidente da Cabo Verde Investimentos, Victor Fidalgo, apresenta os números que revelam o quanto Cabo Verde está na moda (40 por cento mais de entradas de turistas em cinco anos), enquanto Jorge Figueiredo, autarca do Sal, e alguns empresários manifestam, por seu lado, a preocupação com este “fenómeno”. “Temos que saber quando parar”, afirma o proprietário do Hotel Odjo de Agua, no Sal, referindo-se ao impacto do turismo no ambiente e em espécies protegidas, como as tartarugas marinhas.
Mas se ao arquipélago faltam muitos recursos, não se nota, pelo menos, a ausência de “parcerias especiais”, adianta o FT, num outro artigo deste dossier. Os laços com a China, que - enumera o jornal britânico - construiu o Palácio do Governo, o Parlamento, a Biblioteca Nacional, o Auditório, casas, um monumento nacional, salas de conferências e a primeira barragem do país, são dos mais importantes para o arquipélago. Tanto que o país quer tornar-se “uma área/plataforma económica especial” para a China introduzir os seus produtos em África, mas também na América e na Europa.
A parceria especial de Cabo Verde com a UE e o que representa para ambas as partes (“um posto de segurança avançado da Europa, com a UE a fornecer ao arquipélago os meios e o ‘know-how’ para combater o tráfico de droga e a imigração ilegal”, diz o FT), a presença da NATO no arquipélago, a adesão à OMC e a graduação para País de Rendimento Médio são mais algumas das conquistas destas dez ilhas que o jornal britânico destaca. “Cabo Verde foi seleccionado como o primeiro país a beneficiar da experiência-piloto para um Escritório Comum das Nações Unidas, uma medida que visa racionalizar o trabalho das agências da ONU nos países em desenvolvimento, assegurando a eficácia do seu desempenho”, conta o Financial Times na notícia “An array of special partnerships” (Uma série de parcerias especiais”).
Enquanto Cabo Verde “deixa assim para trás o seu estatuto de país pobre”, o “Financial Times” vislumbra, nos dois textos de análise que abrem o dossier, uma chance para o arquipélago se “libertar da dependência da ajuda externa” e “rentabilizar a sua vocação atlântica”. Um país que vive entre paradoxos, conclui a reportagem desta publicação de referência a nível internacional.
“Cabo Verde conseguiu manter-se longe das maiores aflições do continente africano. As ilhas estão num momento de viragem, prestes a tornar-se PDM e a conseguir uma parceria especial com a UE. O país já começou a receber mais investimento estrangeiro do que ajudas orçamentais, e mais dinheiro do turismo do que das remessas dos emigrantes. Mas enfrenta o desafio de formar a sua população activa para os empregos que o turismo está a criar”, explica o FT. Afinal Cabo Verde deseja um “turismo de qualidade e com valor acrescentado”, mas necessita ainda de “construir serviços básicos, que requerem investimentos avultados”. “O que queremos não é o que precisamos”, afirma o ministro da Economia, José Brito ao jornal britânico. Isaura Gomes, uma personagem que o FT classifica como “força da natureza”, apresenta uma solução. “O que precisamos é integrar o planeamento no sector do turismo”, conclui Zau, lamentando-se por “em Cabo Verde ninguém planear nada”.
Para José Maria Neves, o país tem “que rentabilizar ao máximo a sua vocação atlântica”. Mas - avisa o primeiro-ministro - “seria um erro confiar exclusivamente no turismo, sector que dinamiza a economia”. Por isso, se estuda a possibilidade de o arquipélago se tornar um “hub” das pescas ou da aviação ou ainda um centro financeiro. Ou seja, e resumindo o que inúmeras autoridades disseram aos jornalistas do FT, estas dez ilhas ainda “têm muito caminho a percorrer”.