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| Cultura : Luís Romano: patrimônio intelectual caboverdianobrasileiro |
| em 27/01/2010 (185 leituras) |
 (Um depoimento)
Brasil e Cabo Verde têm idênticas expressões de convívio na sua formação humana, trazida da Europa e da África. Há um elo sentimental que nos caracteriza, a ponto de não ferir o contacto dessas famílias irmãs, embora separadas pela distância marítima. Luís Romano
Uma mente que brilha jamais será ofuscada pelo Tempo. Cronos, que a seus filhos devora tão logo nascem, privou-nos do convívio de mais um escritor e intelectual de inestimável valor para os Estudos Caboverdianos. Mas a memória, assim como a arte, consegue deter o fluxo do Tempo para marcar-lhe os instantes de fulgor e, sem sombra de dúvida, a obra de Luís Romano oferece a nós, leitores, muitos destes momentos de epifania. Até os últimos momentos de sua passagem por este rio de Heráclito que inexoravelmente nos conduzirá a outro (ou mesmo?) rio, o de Caronte, Luís Romano preocupou-se, daqui do Brasil onde residia, em acompanhar o desenvolvimento da terra-mãe, de sua gente, de sua cultura.
E afirmo isto também porque, em junho de 2009, recebi com surpresa uma carta sua agradecendo-me pela homenagem que lhe foi prestada no I Seminário Internacional de Estudos Caboverdianos: contravento, pedra-a-pedra, realizado na Universidade de São Paulo, Brasil, em novembro de 2008, sob minha coordenação-geral. O evento reuniu mais de duas dezenas de personalidades caboverdianas e, certamente, a ausência do escritor em plêiade de tal magnitude, reunida para discutir os rumos da literatura, do cinema, da pintura, da música de sua terra., foi resultado de seu precário estado de saúde.
Cronos-Saturno já começara a jogar freneticamente seus dados.
Para dirimir o fato de não poder ter participado do congresso de que era o homenageado de honra (de acordo com o projeto de divulgação de sua obra, tarefa conjunta que esta professora e seu Grupo de Estudos Caboverdianos CNPq-USP desenvolviam com Vera Duarte e por inspiração desta), Luís Romano enviou-me a seguinte mensagem: “a fim de minorar tal ausência, tomo a liberdade de vos oferecer outra sinopse sobre a actual LiteraturaCcaboverdiana, dando-vos total autoridade para eventual publicação”.
Á carta, datada de 2 de junho de 2009, somava-se um volume (com uma capa escolhida pelo autor, a imagem do navio Ernestina) contendo textos originais do seu mais recente livro, derradeiro livro.
O pacote com este precioso conjunto chegou às mãos desta professora sem aviso, num fim de tarde paulistano, meses depois da homenagem prestada ao grande escritor, caboverdiano residente desde 1962 em terras brasileiras.
Comovida com este verdadeiro “presente” e com a responsabilidade pela tarefa que lhe era delegada pelo Autor com máxima confiança, esta pesquisadora compartilhou sua emoção com a irmã do outro lado do Atlântico – Vera Duarte, outra entusiasta leitora e divulgadora da obra de Luís Romano _ à semelhança do gesto de Jorge Barbosa ao enviar a estrela da manhã para Manuel Bandeira.
E assim, da junção de alegrias, surgiu a idéia de introduzir o livro com um prefácio binacional, tal como a paixão do insigne escritor pelos dois países que adotou de coração: Cabo Verde e Brasil. Este texto é parte dele e anuncia a publicação que virá, com a chancela do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Cabo Verde.
Nascido a 10 de junho de 1922 na Vila da Ponta do Sol, ilha de Santo Antão, Luís Romano de Madeira Melo, com fôlego de menino aos 87 anos de idade, presenteou-nos com uma obra inestimável para os estudos caboverdianos de literatura e cultura que, à semelhança da sinopse Cem Anos de Literatura Caboverdiana: 1880/1980, publicada na revista África (1984), perpassa a trajetória intelectual de seu país, no período compreendido entre 1960 e 2002.
A partir da cidade de Natal (onde fomos visitá-lo neste janeiro, dias antes de seu “encantamento”, sem sucesso, face ao seu estado terminal de saúde), terra brasileira na qual afirmava ter encontrado “uma espécie de paralelismo emocional”, irmã em beleza e aspectos físicos do seu Cabo Verde “sabe”, o escritor teceu os seus Comentários Literoverdianos, sempre atento, qual sentinela, ao que se tem produzido nas ilhas do outro lado do Atlântico. A atualidade de suas reflexões sobre literatura (em língua caboverdiana e em língua portuguesa), artes plásticas, formas musicais tradicionais e seus intérpretes, folclore, língua materna, temas de direitos humanos, as apreciações sobre obras críticas relativas a conteúdos caboverdianos, além de suas entrevistas transcritas perfazem um painel de múltiplas faces que permite ao leitor o conhecimento panorâmico do que se tem produzido em Cabo Verde e a respeito de suas expressões identitárias, com a acuidade de quem faz arte e conhece a história da cultura de seu país.
Se a publicação de Famintos no Brasil, tal a carga de denúncia sobre o desmando da ditadura e do despotismo “reinol” no arquipélago, constitui um dos grandes momentos da literatura e um dos mais potentes gritos sobre o abandono das gentes na ex-colônia (“o espetáculo de ver compatrícios morrer à fome, ao desamparo”, testemunhado por Romano até 1948), estes Comentários literoverdianos demonstram a vitalidade de uma voz que nunca se calou, a despeito da doença que, por vezes, tentou alquebrar o corpo. Recebido “com afecto fraternal”, como refere em entrevista, pelo povo brasileiro, Luís Romano sempre acompanhou e fomentou a “luta pela cidadania com dignidade e vitórias” por parte de seu povo, o caboverdiano. Brilhou aqui e lá, ou aqui-lá. Famintos (Rio de Janeiro, 1962, romance popular caboverdiano), Clima (Recife, 1963, poemas), Cabo Verde: elo antropológico entre a África e o Brasil (Natal, 1964), Cabo Verde-Renascença de uma Civilização no Atlântico Médio (Lisboa, 1967, poemas e contos), Negrume/Lzimparin (Rio de Janeiro, 1973, contos), A poesia viva de Cabo Verde (Rio de Janeiro, 1976), Crónicas (Voz di povo, 1981), Contravento: antologia bilingue de poesia caboverdiana (EUA, Atlantis, 1982), Cem Anos de Literatura Caboverdiana (Lisboa, 1984), Ilha (S. Vicente, 1991, estórias caboverdianas), Kabverd Civilização e Cultura (Rio de Janeiro, 2000) são textos de natureza vária (romance, poesia, conto, crônica, ensaio) que atestam a versatilidade de um escritor que, na diáspora, perseverou no cultivo do amor à sua terra de origem, concebendo-a sempre como elo entre terras e culturas. Aguardemos, pois, com ansiedade e júbilo antecipado, a publicação de Comentários Literoverdianos, livro derradeiro de Luís Romano que tive a honra de organizar e prefaciar, juntamente com Vera Duarte, e de entregar em mãos, em dezembro de 2009, digitado para revisão e conseqüente publicação, a Joaquim Morais, Presidente do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Cabo Verde, outro entusiasta da divulgação da obra de Romano e de tantos que se dedicam a dar a conhecer e a amar Cabo Verde. A edição deste exemplar histórico participará de um conjunto de publicações no âmbito das comemorações dos 35 anos da Independência.
Lembro, extremamente emocionada, a voz alegre que recebia por telefone a notícia da intenção da publicação do livro pelo IBNL, quando lhe comuniquei a confirmação do projeto há meses atrás. E minha memória renova a felicidade de saber, por seus familiares, que novo vigor insuflara Romano àquela altura, a partir da certeza de que eu havia cumprido a tarefa que a mim designara. Conduzindo a Cabo Verde a “sua” estrela da manhã, semelhante ao gesto de Jorge Barbosa de com ela tentar restituir a saúde a Manuel Bandeira, tentei levar a arte de Romano para a casa original. Minha esperança era a de que, “chegado enfim o viajeiro”, Cronos permitisse que ficasse um pouco mais entre nós.
Irreversível no seu movimento, Saturno, talvez sábio face a tanto sofrimento, ceifou-nos Luís Romano deste mundo de imagens e mesmo do egoísmo de que tudo e todos sejam eternos. A voz e o vigor de Romano já não estão aqui conosco, visíveis na convivência. Mas, certamente, continuam e continuarão ecoando na memória dos que amam Cabo Verde e prezam seus laços afetivos com o Brasil.
O livro de Luís Romano fica entre nós, como “certa rosa vermelha/ num terreno secreto/ adubado de esperança”.
Simone Caputo Gomes (Professora Doutora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo, Brasil)
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Pesquisa
Celebração Nacional
A 5 de Julho de 1975, Cabo Verde ascendia à independência nacional, depois de um duro e longo combate de libertação, que os limites geográficos impuseram acontecer fora do seu território.
Sabe-se que o caminho do futuro é, necessariamente, interminável. Às gerações que terão o dever e a obrigação de garantir o porvir da Nação não faltará trabalho. O esforço deve ser contínuo e permanente, tantos são os desafios que terão de enfrentar, num país carente de tudo, onde a falta de recursos é crónica.
Porém, ao olharmos para trás, e podemos fazê-lo orgulhosamente, considerando o ponto de partida, a largada, só podemos acreditar que seremos capazes de enfrentar e vencer todas as dificuldades, não fosse o cabo-verdiano um povo vencedor, porque temperado a ultrapassar todas as agruras que a História lhe impôs. E não foram poucas, considerando a longa duração e a realidade!
Muitos se insurgem contra o passado desconhecendo que esse mesmo passado nos cerca a cada passo. Ele se torna presente no quotidiano, sem que disso se dê conta. A verdade é que só se pode avaliar, crítica e convenientemente, o percurso andado, quem for capaz de olhar para trás.
O que Cabo Verde é hoje não é obra de feliz acaso. É fruto de muito trabalho, dedicação, esforço e perseverança de quem acreditou ser possível a utopia/aventura da independência em 1975, porque partimos do zero e não tínhamos outro recurso que não fosse o indómito povo das nossas ilhas, sofredor mas esperançoso de que futuro seria diferente. E está sendo, tanto porque o seu povo sente e vê que a independência valeu a pena! Talvez, aos olhos dos mais novos, metade da população actual tem menos de 20 de idade, se fale dos muitos problemas que ainda persistem em muitas áreas
No entanto, não foram poucos os avanços conseguidos nos últimos 35 anos da nossa existência como Nação independente. Há apenas 60 anos, 1/3 da população do arquipélago morria à fome. Há menos de 40 anos, dois terços da nossa população era analfabeta; as escolas eram para uma pequena elite; tínhamos à volta de 6 médicos; a esperança média de vida era de 45 anos; a previdência social era inexistente e o PIB per capita era US 150 dólares.
São conquistas da independência, que não mais se morresse à fome; que o analfabetismo seja hoje residual no país; que a escolarização bruta seja a uma taxa de 115%; que a esperança de vida tenha alcançado os 75 anos e a mortalidade infantil tenha diminuído drasticamente; a previdência social abranje, hoje, mais de 30% da população e existam perto de 600 médicos, enquanto multiplicamos o PIB per capita por mais de 15, passando, por isso mesmo, de país menos avançado para um de rendimento médio.
Por isso se diz, hoje, com orgulho, que Cabo Verde é uma Nação vencedora, sem triunfalismo, cientes de que muito caminho temos ainda pela frente, e certos de que, em democracia, sistema político abraçado pelos cabo-verdianos, quanto mais se avança, com a formação, educação, qualificação, quanto mais se afasta da ignorância e da miséria, serão cada vez maiores as exigências dos cidadãos, que devem ter bem presente, no entanto, os limites da capacidade real do país para responder às legítimas aspirações do seu povo.
Cabo Verde mantém-se farol na luta pela dignidade de todos os cabo-verdianos, dentro e fora do território nacional, no abraço a povos amigos de vários quadrantes, que se mantêm suporte em ajudas e apoios para o seu desenvolvimento. A garantia é que, como sempre, saberemos merecer a confiança dos nossos parceiros, dando o devido caminho ao que deles recebemos, apenas em benefício do bem-estar da população.
Sendo o seu povo a riqueza desta Nação, lutemos, pois, para que cada cidadão possa alcançar o seu máximo de potencialidade no espírito do Bem Nacional.
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